quinta-feira, dezembro 16, 2004

Elas

Ouves por acaso. O grupo é pequeno, íntimo, sim, de amigos comuns. E percebes que elas, sentadas perto de ti, falam de sexo. Uma com a outra, confidentes. Ouves, portanto, partes da conversa. Aguças o ouvido, inclinas-te, displicente, no sofá. O assunto interessa-te. Uma explica que «estava deitada, com ele entre as pernas»; a outra pergunta-lhe se não prefere «de pé, movendo os quadris até senti-lo a roçar o clitóris». Estás na fase tardia da pívia, divides-te entre guardar-te para o arregaçanço ou avançar, audaz, confiante, como quem diz: «elas querem é peso». Só depois compreendes que falavam duma almofada. Que também elas pertencem à Seita de Fénix, mas que começam já a discutir as subtilezas da Arte. Que, não tarda, a almofada não será necessária. Que lhes bastará poisar a mão, muito aberta, muito levemente, sobre as coxas. E depois deixá-la (a mão) ligeiramente afastada. Sentindo essa espécie de lume vagaroso, exíguo, exausto, até à loucura e à consciência do torpor e do milagre. Saberás então (intuis) que és tu exactamente quem menos interessa ao assunto. Que nem reparam que estás presente, incomodado, a coçar os tomates. És novo, enfim, talvez não estejas ainda perdido de todo para a suprema Causa.